Eduardo Mesquita

“Adolescência” (Netflix): Uma análise sobre a angústia de ser pai e a falta de respiro

Recentemente, assisti à série “Adolescência”, na Netflix. Vou ser sincero: no geral, achei mediana. Talvez pela minha expectativa de um plot twist mirabolante, quando a realidade já é apresentada de forma inquestionável logo no primeiro episódio. E eu demorei a acreditar que o assassino já tinha sido revelado!

A série toca em temas urgentes: masculinidade adoecida, bullying, o impacto das redes sociais e a sexualização precoce. No entanto, em apenas quatro episódios, ela passa por esses pontos sem verticalizar tanto. Até mesmo o crime em si não é o foco do aprofundamento. Já falei que o crime é resolvido logo no comecinho? Nem é spoiler, de tão cedo que acontece.

Mas, como psicólogo e observado, duas preciosidades me fizeram olhar para essa obra com outros olhos.

A Linguagem do “Não-Respiro”: O Plano Sequência

A série é filmada em plano sequência — uma filmagem contínua, sem cortes. No início, senti um incômodo visceral. Voltei para entender o porquê e percebi: a falta de edição tira da gente o “respiro”.

É uma escolha técnica genial. O diretor te pega pelo braço e diz: “Você vai ver, você não vai se ausentar!”. Especialmente no último episódio, somos arrastados pelos corredores junto com a família, participando daquele passeio mesmo sem querer. Essa linguagem transmite a angústia e o sufocamento da situação de forma que nenhuma palavra conseguiria.

O Papel do Pai e a Armadura Emocional

O que realmente dá o tom da série é a atuação de Stephen Graham (que também criou a obra). Ele interpreta o pai de Jamie com uma entrega brutal. Conheci Graham em “Snatch – Porcos e Diamantes”, onde ele fazia um papel quase abobalhado. Aqui, ele é um gigante.

A última cena, em que ele desmorona emocionalmente, é de cortar a alma. Soube que a produção colocou fotos da família real do ator no set para ajudá-lo a destruir a armadura emocional do personagem. E esse, para mim, é o grande tema da série: o papel do pai.

A dor da insatisfação paterna

Eu sou pai de adolescentes. Então me identifiquei imediatamente com aquela sensação devastadora:

  • O peso de querer ter feito mais;
  • A eterna insatisfação com o que realizamos;
  • A angústia de ver os filhos enfrentando um mundo que não controlamos.

A expressão do pai no quarto de Jamie, na cena final, é um espelho de uma masculinidade que tenta ser fortaleza, mas que é, no fundo, feita de carne, osso e muita culpa.

Conclusão: Gigante pelo Impacto

“Adolescência” pode não ser um marco de roteiro como foi a primeira temporada de Round 6 (que eu enlouqueci!), e talvez nem se pretenda ser gigante. Mas ela se torna enorme pelo impacto que causa e pelas feridas que toca.

Assista sem expectativas de grandes mistérios, mas com os olhos abertos para a técnica cinematográfica e, principalmente, para a vulnerabilidade humana que ela expõe.

Falei? Falei!

Há braços,

Eduardo Mesquita
Psicólogo e Mentor de Oratória & Posicionamento.


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