Vi esse vídeo de um show do Judas Priest em que eles começam a tocar “Breaking the Law” e, Rob Halford – o vocalista “Deus do Metal” – nem começa a cantar. A música segue em frente porque a plateia inteira assume os vocais. São milhares de pessoas cantando uma música que, durante décadas – desde o lançamento de “British Steel”- foi cantada por ele, enquanto Halford apenas observa o público fazer aquilo que, em tantos outros momentos, sempre foi responsabilidade dele. Sei como é essa cena, eu já estive em um show deles e cantei “Breakin The Law” como se tudo fosse acabar no dia seguinte. É uma sensação louca de boa!
E eu sei que existe um pensamento que muitos ali compartilham: “Caramba, que trabalho maravilhoso esse do Rob Halford. O sujeito é muito bem pago para cantar suas próprias músicas e nem precisa cantar. Basta apontar o microfone para a plateia e assistir a um estádio inteiro fazer o trabalho por ele.”
É fácil olhar para uma cena dessas e pensar: “Eu queria ter chegado nesse lugar”. Oras, com o Sangue Seco eu já tive centenas de pessoas cantando as minhas músicas, só posso imaginar como é ter milhares de pessoas cantando junto e honrando minha arte.
O problema é que, quando olhamos apenas para o palco, enxergamos o resultado e esquecemos completamente o caminho que produziu aquele resultado. A imagem de Halford diante de milhares de pessoas cantando uma música que se tornou um clássico parece representar uma espécie de facilidade absoluta. Só que aquela facilidade é, na verdade, o resultado de uma trajetória construída durante décadas.
E talvez essa seja uma das maiores distorções que fazemos quando observamos pessoas que admiramos profissionalmente: desejamos o lugar em que elas chegaram sem considerar a história que precisaram atravessar para chegar até ali.
O palco mostra o resultado, não o processo
O Judas Priest começou em Birmingham, na Inglaterra, em 1969. Rob Halford entrou na banda em 1973. Estamos falando de mais de cinco décadas de uma carreira que atravessou transformações profundas na música, mudanças de formação, crises pessoais, pressões da indústria, turnês, mudanças de mercado e tudo aquilo que existe por trás de uma carreira construída durante tanto tempo.
Quando vemos Halford hoje, nada disso está visível.
O que vemos é um homem que sobe ao palco, canta diante de milhares de pessoas e, em determinado momento, pode simplesmente entregar o microfone para que o público continue a música. A vivência de tantas décadas tornou aquele gesto aparentemente simples, a experiência acumulada faz soar natural. O público conhece a música, conhece o momento, conhece o ritual e responde imediatamente.
É justamente aí que existe uma ilusão.
Quanto maior a experiência de alguém, mais fácil é parecer que aquilo sempre foi fácil.
Nós corremos o risco de fazer isso o tempo inteiro com as pessoas que encontramos no mundo profissional. Olhamos para um executivo que conduz uma reunião com segurança e imaginamos que ele sempre teve aquela capacidade. Vemos uma empreendedora falando sobre sua empresa com clareza e concluímos que ela nasceu com aquela confiança. Observamos um especialista sendo reconhecido por aquilo que faz e tendemos a esquecer que, antes de ser reconhecido, ele passou anos desenvolvendo conhecimento, errando, corrigindo decisões e falando sobre seu trabalho quando ainda não havia ninguém particularmente interessado em ouvi-lo. Como gente que passou alguns anos fazendo lives para duas pessoas ou para ninguém (spoiler – fui eu!).
A experiência tem uma característica curiosa: depois de construída, ela se torna pouco visível.
O que para quem está começando exige esforço, preparação e atenção, para quem já percorreu aquele caminho pode parecer espontâneo. O problema é que quem observa de fora vê apenas a espontaneidade final e imagina que ela surgiu pronta.
Nós desejamos o resultado, mas raramente desejamos o caminho
Existe uma diferença importante entre admirar a trajetória de alguém e desejar apenas o resultado dessa trajetória.
Quando dizemos que gostaríamos de ter a carreira de determinada pessoa, normalmente estamos falando do que conseguimos enxergar. Queremos a posição, a reputação, o reconhecimento, o dinheiro, a liberdade, os convites, os grandes clientes ou a autoridade que aquela pessoa conquistou.
Quase nunca pensamos nas condições que precisaram existir para que tudo isso acontecesse.
Isso aparece com muita força nas comparações profissionais. Uma pessoa olha para alguém que ocupa uma posição de liderança e pensa que gostaria de ter aquela autoridade, mas não conhece as decisões difíceis que vieram antes dela. Olha para alguém que construiu uma empresa e deseja a liberdade que aparentemente existe hoje, mas não acompanhou os anos em que aquela liberdade foi substituída por risco, insegurança e responsabilidade. Observa um profissional que fala com naturalidade diante de uma plateia e imagina que ele simplesmente possui uma característica que falta a ela, sem considerar quantas vezes aquela pessoa precisou se expor, receber críticas, corrigir sua comunicação e continuar falando mesmo quando ainda não tinha a segurança que demonstra atualmente.
Nós conhecemos muito bem o nosso próprio bastidor. Da outra pessoa, normalmente conhecemos apenas o palco.
É uma comparação injusta desde a origem.
Você sabe das vezes em que errou, das oportunidades que perdeu, das inseguranças que ainda sente e das decisões que gostaria de ter tomado de outra maneira. Quando olha para outra pessoa, entretanto, quase sempre enxerga aquilo que sobreviveu ao processo: o resultado.
É por isso que outras trajetórias parecem mais fáceis, porque são vistas de fora.
O caso de Rob Halford torna essa reflexão ainda mais profunda
A história de Halford não é apenas a história de uma carreira longa e bem-sucedida.
Ele também enfrentou problemas sérios com álcool e drogas e entrou em reabilitação em 1986. Está sóbrio desde então. Essa parte da história importa porque mostra algo que costuma desaparecer quando observamos apenas uma carreira consolidada: a pessoa que hoje parece absolutamente segura também pode ter passado por períodos em que precisava reconstruir a própria vida.
Existe ainda uma dimensão muito mais íntima de sua trajetória. Halford é gay e passou décadas escondendo sua sexualidade, em grande parte porque temia as consequências que isso poderia provocar em uma banda inserida no ambiente fortemente machista e conservador do heavy metal daquela época. Ele assumiu publicamente sua homossexualidade em 1998, depois de muitos anos convivendo com esse conflito.
Quando você sabe disso, a imagem daquele homem diante de uma multidão muda.
Não porque sua competência artística seja diferente, mas porque você passa a compreender que aquela segurança que vemos no palco não resume a experiência daquela pessoa. Durante décadas, Halford precisou administrar uma distância entre aquilo que era publicamente e aquilo que era privadamente. Precisou lidar com medo, silêncio e conflito enquanto construía uma das carreiras mais importantes do heavy metal até passar a ser chamado de “Heavy Metal God”. Não é pouca coisa.
Isso nos lembra de uma coisa que vale para qualquer pessoa: a imagem que conseguimos observar nunca contém a totalidade da experiência de quem está diante de nós.
Uma pessoa pode parecer extremamente segura e estar atravessando uma crise. Pode ocupar uma posição de enorme autoridade e carregar inseguranças que ninguém conhece. Pode ter construído uma carreira admirável enquanto enfrentava problemas que não apareciam em nenhuma fotografia, entrevista ou apresentação pública.
Por isso, olhar para o palco e concluir que sabemos como foi a vida daquela pessoa é sempre uma simplificação.
Existe uma história por trás daquilo que chamamos de segurança
Isso também muda a maneira como deveríamos interpretar a segurança profissional.
Muitas pessoas acreditam que precisam primeiro se sentir confiantes para depois se posicionar. Esperam aquele momento em que a dúvida desaparece, a insegurança deixa de existir e finalmente se sentem autorizadas a ocupar determinado espaço.
Esse momento provavelmente não chega da maneira como imaginamos. Ou nem chega.
A segurança que admiramos em outras pessoas costuma ser consequência de uma história de exposição, aprendizagem, correção e enfrentamento. Não significa ausência de insegurança. Significa capacidade de continuar funcionando apesar dela.
Isso é particularmente importante quando falamos de comunicação.
Existe uma diferença entre ter competência e conseguir comunicar essa competência de maneira que ela seja percebida pelos outros. Um profissional pode ter conhecimento, experiência e resultados e, ainda assim, falar de si com hesitação, ocupar pouco espaço nas conversas importantes, evitar posições mais firmes ou apresentar seu trabalho de uma maneira que não corresponde à dimensão real daquilo que construiu.
Nesse caso, o problema não está necessariamente na competência. Está no descompasso entre competência e percepção.
E esse descompasso interfere diretamente no posicionamento profissional, porque o mercado não consegue enxergar aquilo que permanece completamente escondido, o popular “ninguém sabe o que calado quer”. As pessoas formam percepções a partir do que observam, escutam e experimentam nas relações. A comunicação, portanto, não é um acabamento colocado sobre a competência depois que tudo está pronto. Ela participa da construção da percepção de valor, autoridade e capacidade.
É por isso que alguém pode ter muito mais competência do que demonstra e, mesmo assim, continuar ocupando um espaço menor do que poderia.
Talvez você esteja olhando demais para o palco dos outros
Essa reflexão pode ser desconfortável porque, em algum momento, precisamos deixar de perguntar por que determinada pessoa chegou tão longe e começar a perguntar o que estamos fazendo com a nossa própria trajetória.
É muito fácil observar alguém que está alguns degraus à frente e atribuir sua posição a características que imaginamos não possuir. “Ele tem mais presença.” “Ela é mais confiante.” “Ele sabe se vender.” “Ela tem facilidade para falar.” Essas explicações são convenientes porque transformam uma trajetória complexa em uma característica simples.
Só que carreiras raramente funcionam dessa maneira.
A pessoa que hoje parece ter facilidade pode ter desenvolvido essa habilidade justamente porque passou anos enfrentando situações que a obrigaram a desenvolvê-la. O profissional que hoje se comunica com firmeza pode ter aprendido isso depois de descobrir, algumas vezes da maneira mais desagradável possível, que seu conhecimento não era suficiente para produzir o efeito que precisava produzir.
A experiência profissional é construída também por aquilo que não funcionou.
Por isso, quando você olha para alguém que admira, uma pergunta mais interessante do que “por que eu não estou onde essa pessoa está?” é “o que essa trajetória me ensina sobre o espaço que eu quero ocupar?”.
A pergunta muda a relação com a comparação.
Em vez de transformar o sucesso do outro em prova da própria insuficiência, você começa a tratá-lo como fonte de informação. Observa comportamentos, decisões, competências e escolhas. Percebe que determinadas posições exigem preparação que você ainda não desenvolveu. E também pode descobrir que já possui recursos suficientes para ocupar espaços que ainda não ocupa simplesmente porque não os reconhece ou não os comunica com clareza.
Antes de desejar o palco, conheça os bastidores
A cena de Rob Halford apontando o microfone para a multidão continua sendo espetacular. Só que, depois de conhecer um pouco mais da história por trás daquele momento, fica difícil enxergá-la apenas como um cantor que resolveu descansar enquanto a plateia fazia o trabalho.
Aquela aparente facilidade é consequência de uma história.
A multidão canta porque conhece aquela música. Conhece porque aquela voz passou décadas cantando. O público responde ao gesto porque existe uma relação construída ao longo de muitos anos entre artista e plateia. O que parece um instante de descanso é também uma demonstração da dimensão que aquela carreira alcançou.
Talvez seja justamente isso que torne a cena tão interessante. Em determinado momento, Rob Halford pode parar de cantar porque já construiu algo que permite que milhares de pessoas continuem cantando por ele e isso não aconteceu naquela noite.
Aquela noite apenas tornou visível o resultado de uma trajetória que começou muito antes de existir um estádio cheio.
É assim também com nossas carreiras. O momento em que alguém parece seguro, influente, reconhecido ou à vontade diante de uma situação importante costuma ser apenas a parte visível de uma construção muito maior. Existe uma história anterior de preparação, escolhas, erros, enfrentamentos e amadurecimento que não cabe naquele instante.
Por isso, antes de desejar o palco de alguém, vale a pena conhecer os bastidores.
E vale ainda mais a pena olhar para os próprios.
Talvez você esteja subestimando o que já construiu porque se acostumou demais com a própria trajetória. Talvez experiências que hoje parecem comuns para você sejam justamente aquilo que diferencia sua capacidade profissional. Talvez seu próximo movimento não dependa de acumular mais uma certificação, mais um curso ou mais alguns anos de experiência, mas de aprender a comunicar melhor aquilo que esses anos já construíram.
Posicionamento não consiste em inventar uma importância que você não possui. Consiste em reconhecer o valor que já existe, compreender como ele está sendo percebido e desenvolver uma comunicação compatível com o espaço que você está preparado para ocupar.
Quando isso acontece, a comunicação deixa de ser apenas uma ferramenta para falar melhor e passa a cumprir uma função muito maior: tornar visível uma competência que já estava ali.
Talvez seja essa a melhor maneira de olhar para aquela cena do Judas Priest.
Não como a imagem de um homem que chegou a um lugar onde tudo ficou fácil, mas como a imagem de alguém que percorreu uma trajetória suficientemente longa para que, por alguns minutos, pudesse apontar o microfone para uma multidão e deixar que ela cantasse por ele.
Antes de desejar aquele momento, vale conhecer tudo o que veio antes.
Falei?
Falei!
Eduardo Mesquita
Psicólogo e Mentor
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